2004
- Abril
Revista ISTOÉ:
Fartura na Mesa: Ao ensinar a fazer pão, fundo social
do
governo paulista promove trabalho e renda.
A
mistura
não tem segredo. É só juntar um pouco
de boa vontade dos governantes e uma porção
de apoio de empresas e da sociedade civil num caldeirão
de necessidades. Está pronta a receita do Programa
Padarias Artesanais, que está enriquecendo a mesa
de milhares de pessoas em todo o Estado de São Paulo.
Ele ensina a população a colocar, literalmente,
a mão na massa para fazer pães e distribui
kits compostos por forno, batedeira, liquidificador, balança,
assadeira e botijão de gás. Criado pelo Fundo
Social de Solidariedade do Estado de São Paulo, já
distribuiu mais de cinco mil kits, beneficiando mais de
1,9 mil entidades só na capital. Está sendo
desenvolvido em comunidades de baixa renda, assentamentos,
creches, entidades assistenciais, unidades da Febem e penitenciárias.
Funciona assim: as comunidades ou instituições
se cadastram no programa e recebem o kit; depois, cada comunidade
elege um representante para ser capacitado - ele aprende
a fazer pão, mas também recebe noções
básicas de saúde, higiene e cidadania. "Quem
faz o treinamento tem a missão de ser um agente multiplicador
na sua comunidade, repassando o que aprendeu para os moradores.
Com o domínio da técnica, as famílias
começam a produzir e a comercializar os pães
em suas casas.
Os bons resultados nos mostram que é investindo no
ser humano que podemos promover o seu desenvolvimento",
ressalta Maria Lúcia Alckimin, a dona Lu, como é
conhecida a primeira-dama do Estado, também presidente
do Fundo Social de Solidariedade. Esse conhecimento deu
novas perspectivas à dona-de-casa Eliane de Paula
Teixeira, 30 anos, mães de três filhos. Moradora
da favela Rocinha, na zona sul da capital, ela aprendeu
a fazer pães e salgadinhos. "Vou preparar tudo
muito gostoso e vender no comércio aqui da região.
O curso de culinária nos animou tanto que eu e meu
marido voltamos a estudar, depois de 20 anos fora da escola.
Nosso plano é abrir um negócio e fornecer
para festas", conta Eliane.
O sucesso do programa não se deve apenas aos fornos
e botijões distribuídos. De acordo com Lu
Alckimin, o envolvimento da associações de
bairro e de organizações não-governamentais
na aplicação do projeto tem sido fundamental.
"São elas que fazem o trabalho entre os moradores.
Organizam reuniões e saem de casa em casa convidando
as pessoas para os cursos. Além disso, buscam no
próprio bairro parcerias com donos de lojas, padarias,
salões de cabeleireiros e profissionais liberais
para a criação de novos projetos. Elas fazem
o trabalho pesado. A minha parte é articular para
trazer as melhorias", explica dona Lu. Na Favela Alba,
zona sul de São Paulo, esse trabalho é feito
por Iasmi Loberto, que também dirige o CIPS - Centro
Integrado de Promoção Social, organização
não-governamental que oferece educação
profissional para jovens de baixa renda na região.
Ela circula diariamente pela 20 favelas espalhadas pelo
bairro, ouvindo as queixas dos moradores e divulgando os
cursos. "É um esgoto a céu aberto aqui,
é uma fiação com risco de curto-circuito
ali. Por aqui, problema é o que não falta.
Quando dona Lu nos visita, transmito a ela o recado",
relata Iasmi.
E é com muita atenção e paciência
que a primeira-dama ouve registra em seu inseparável
caderno de anotações as queixas e as histórias
da população. Na última visita que
fez aos moradores da Favela Alba, foram mais de dez páginas
de relatos. "Anoto tudo que acontece quando saio para
visitar as comunidades. Não registro apenas os problemas.
Escrevo todas as histórias de sucesso das pessoas
que estão mudando de vida com o programa. Elas são
tão emocionantes que pretendo transformá-las
em um livro", revela dona Lu, que se emociona só
de falar do assunto.
Se depender das boas histórias, um livro pode ser
pouco. É que, desde o início do ano, o Programa
Padarias Artesanais começou a ser implantado nas
seis mil escolas públicas do Estado - além
dos alunos, os pais também poderão fazer o
curso nos finais de semana. Sem contar que o sucesso do
programa despertou o interesse de outros Estados e até
de outros países. Rio de Janeiro e Minas Gerais adotaram
a idéia, e, recentemente, representantes dos governos
do Paraguai e da Venezuela estiveram no Brasil para conhecer
de perto o programa. É o milagre da multiplicação
dos pães.
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